domingo, 23 de março de 2014

Grandeza mansinha

Aí pensando nesse mini-ritual online chamado solicitação de matrícula, penso que dias de mudanças são dias de bem maior e (ainda que durem 24 horas como qualquer outro dia) dias mudanças são dias de grandeza.
Não grandeza assim de felicidade plena ou pó-mágico-das-fadas-eliminadoras-de-problemas. Ocorreu-me que a grandeza das novas oportunidades é do tipo de grandeza mansinha – aos poucos é que vai nascendo e inundando os dias. O mínimo que se pode fazer é aceitar esse bom sentimento: o que há de novo em nós procura o novo e belo fora de nós. Assim tem sido, assim será.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Para um fim de semestre: re(lembre) do sonho.


Carta a um eu cansado,
Seja levemente ou seja aos solavancos, é necessário continuar.
Se você quer, se realmente quer alcançar alguma sabedoria em cuidar do próximo, se realmente quer conquistar um olhar que compreende cada vez mais: resista.
Seja em fevereiro quando a brisa riograndina se torna um sopro quente, um bafo urgente, seja em julho quando o frio faz doer - você sabe que tem que continuar.
Talvez seja leve, talvez tudo dê certo para você. Ou não. Nunca se sabe quando vêm a porrada. Mas acredite, às vezes quando se perde se ganha. E, sabe, até confesso que gosto mais de mim depois de algumas perdas.
Meio sem esperança ou talvez meio sem forças, ainda assim há que se continuar. Só uma coisa a gente não pode deixar acontecer: a gente não pode deixar que o sonho amorne a cada dia e que o ser médico se torne uma migalha a ser conquistada.
Sem fantasias, não houve promessa de que seria fácil.
Lembrete: Não esquecer que por ora é tempo de plantar. Sí.

Com amor,
Van

Futebol e lembranças in "A colcha de Retalhos: Vivências da Liga de Educação em Saúde"


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A última flama do dia


E acontecem dias são tão lúcidos, tão cheios de realidade, doídos de verdade, que ao deitar, se hesita em fechar os olhos, se pensa, matuta, chora e sorri para a escuridão. Até que o sono vence. E se baixa a guarda, lentamente, dando espaço aos sonhos.
Assopramos a vela do dia e pedimos no inconsciente: que eu acorde vivo, que eu acorde vivo, que eu acorde vivo. Que eu viva.
Alguns até acham drama demais. Quem sabe seja? Mas não é hollywoodiano.
E, ao menos, é verdade. A mais linda verdade.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sobre aplicativos

Que bom seria se a humanidade desafiasse a si mesma a construir um aplicativo que avaliasse o brilho nos olhos, o calor de um abraço ou a energia de um bom riso. E, daí, talvez, nessa busca infundada, a gente percebesse que não há avaliação. Não há porcaria nenhuma de classificação. Classificar é julgar e julgar não é um caminho, é um abismo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Toque

Havia toques que conversavam. Raramente, uma vez que outra, os humanos, quando sinceros, sabiam ter toques puros, toques que conversavam lentamente, uma linguagem suave brotando do fino epitélio que os revestia. 
Esses humanos podiam ficar em silêncio, exalando notas belas, inaudíveis aos ouvidos brutos e quando estendiam as mãos até outro humano, tudo se tornava mais agradável, e o toque em meio à guerra podia trazer paz - pequenas fagulhas invisíveis de amor envolviam as criaturas.

As ciladas do mundo podiam ser amenizadas pelos toques que conversavam. A sabedoria jamais sucumbia quando transmitida ao tocar.
Havia humanos que, quando sinceros, sabiam ter toques puros.
Algumas vezes, o toque desencadeava o sorriso. Algumas vezes, o toque desencadeava o choro. Sorriso e choro, choro e riso, de entonação lírica.
Havia humanos que sabiam tocar.

Há.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Além do concreto

Não consigo esquecer os olhos daquele senhor, acamado, impossibilitado de falar, o tumor avançando silenciosa e rapidamente dentro da sua boca, o inchaço, o sangue que expelia. Os olhos eram urgentes, denunciavam, pediam socorro. As mãos agitadas gesticulavam mostrando-nos como era a dor: latejante.
Eu não sabia o que fazer enquanto ouvia a sua esposa. Relato de amor, e de sofrimento. Estou aqui com ele todos os minutos, dizia. Limitei-me ao silêncio, tomar notas parecia inadequado no momento embora assim sejamos ensinamos.
Uma filha chegou. Talvez tenha a minha idade, pensei enquanto ela beijava o pai na testa. O gesto aqueceu o quarto frio e úmido e aí tomei coragem e olhei dentro dos olhos do homem inundados pela luz violenta da manhã que entrava pela janela do quarto hospitalar. Seu olho claro estava tão cheio de luz que quase era possível mirar o invisível, dentro do corpo que se pode palpar, percutir, auscultar, o invisível intocável no âmago do tocável. Eu não soube no momento mas o olhar daquele senhor me fortaleceu naquela manhã fria de agosto. Há que se resistir.