sábado, 26 de novembro de 2011

Do chá amargo e dos olhos vermelhos.


- Não entendo muita coisa, ele disse tomando mais um gole do chá amargo.
- Não precisa entender, disse eu arrancando as palavras do fundo de sei lá o que. Queria chutar tudo, sabe, ou abrir minha cabeça, abrir um buraco para que as idéias e as palavras fugissem como pequenas névoas. 
- Teus olhos estão vermelhos, e mexeu com veemência o chá já frio.
- Gosto dessa xícara velha. 
- Não muda de assunto.
- Ela é velha, já manchada de café desde sempre...
- Mas teus olhos estão vermelhos.
- Sinal de que estou viva, ao menos.
Ele sorriu e eu quis abraçar cada pequena expressão daquele rosto cansado. Acho que quem não conhece não pode condenar, simplesmente condenar é horrível — é preciso compreender cada pequena expressão de cada pequeno rosto cansado por aí.
- Desculpa por ser tão relapsa, desabafei como se estivesse falando comigo mesma.
- Tudo bem. Há mais foco em ti do que tu pensas.
- Não sei, não. Ando achando que não levo jeito para as coisas, sabe? Não falo de vocação. Falo além. Tanta pressão.
- Por isso teus olhos estão vermelhos?
-  Ando pensando sobre espinhos de rosas. Talvez possa escrever sobre espinhos de rosas.
- É mesmo? E segurou minha mão.
- Acho que seria um bom texto. Um só pequeno espinho de rosa. Virei a mão dele e comecei a desenhar pequenas linhas imaginárias ao redor dos seus dedos. Nada grande demais, continuei falando, apenas um pequeno espinho de uma flor que tu não consegues arrancar da palma da tua mão. E dói fininho. Tu pegas uma agulha e usas a ponta pois sabes que se não conseguir se livrar do minúsculo espinho vai se transformar numa chaga e não será mais uma dor pequena.
- Dá pra escrever sobre chagas começando com um pequeno espinho?
- Dá. E senti o vento frio da noite batendo em meu rosto. Abaixei a cabeça. Dá sim, um dia escreverei.
- Quer mais chá? Senti urgência em sua pergunta, soltei a mão dele como se tivesse muita energia demais para suportar aquele contato.
- Tanto faz.
- Tanto faz?
- Sim, minha cabeça dói e eu vou gritar muito. Tu vais te afastar de mim por causa do meu grito?
- Ela acordaria a vizinhança inteira?
- Legião Urbana, sempre genial. Não consegui deixar de sorrir.
- Tem muita coisa genial por aí.
- É verdade. Me abraça? Falei mais do que pedindo, implorando.
- Eu?
- Sim, um abraço teu. Vou ficando acuada, longe: não quero ficar assim, não me deixa ficar assim.
- Não vou deixar! Mas me conta: porque teus olhos estão vermelhos?
- Por causa dessa morte constante de tudo.
- Sossega, pequena, há bastante vida. Até na morte.
- Eu sei. Mas e o frio?
- O frio do lado de fora da nossa roupa ou o frio dentro do nosso coração?
- Me pegaste nessa.
Rimos.
- Já é meia-noite. Faça um pedido.
- Não tenho um só, ele disse abruptamente.
- Não importa. Pensa num maior, naquilo  que tu mais queres além de doces, doces e doces, boa música, um "café forte e um novo amor."

- Quero que teus olhos deixem de estar vermelhos todas as noites.

Texto dedicado a Caio F. Abreu me entenderia e me ajudou a apreciar singelos diálogos.

domingo, 30 de outubro de 2011

Na escola sem personagens (...)

ao som de 'Un niño en la calle, Mercedes Sosa e Calle 13'


Na escola sem nome e sem personagens,

Ele copia os números. Ávido, atento a cada curva que a professora esboça na pequena lousa. Os cães mulambentos circulam e latem no povoado, farejam em busca de alimento. Mas os meninos permanecem em silêncio - silêncio além do não falar -  e o som das chinelas da maestra arrastam-se para além daquele mundo afora. 'Ocho'. Ou 'oito' lá pra banda dos brasileiros como já ouviu a sua abuelita dizer. Aperta o toco de lápis com força a cada movimento que faz com a pequena mão endurecida. Não vê significado algum, não entende tantos números mas gosta de copiar. E com capricho o menino imita o que o sol da campanha reflete no quadro-negro. A curva do oito será a curva do mundo, um dia.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sons ao redor

Receio que não possa explicar mas tenho pensando que devanear não converge necessariamente ao 
sonho. Sabe, sem devaneios que monstruosa dificuldade teríamos em alcançar a realidade (...)
Assim, tantas vezes falo baixo, deixo os sons ao redor falarem juntos - é o carro que passa na rua, a chaleira com a água para o mate, o vento castigando as janelas e Fito tocando ao fundo. Não são todos esses sons, pois, parte do devanear mas também pedaços da minha fala nessa tarde?

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um novo mate


Perdoe-me pelo chão sujo da cozinha, perdoe-me pelos resquícios de erva mate na mesa. O lixo deve ser varrido, sim, depois. E um novo mate deve ser feito. Ponho a água na chaleira e sento-me aguardando, como se aguardar a água para o mate ficar no ponto fosse uma das grandes maravilhas da vida. E, de fato, considero ser.
Enquanto não ouvir o leve chiar da chaleira, estarei aqui sentada sentindo e ouvindo a vida.  A vida é um sonho, talvez. É o despertar que nos mata, já dizia a minha diva Virginia Woolf.
            Por um instante, deixo de pensar na prova de histologia e nos dígitos que necessito para  estar na média. Esqueço da apresentação do seminário de biofísica; as linhagens resistentes de células sobre as quais falaremos - sob a supervisão de uma das próprias autoras do artigo em questão - são, ainda que tão próximo, algo distante. O mini-teste de bioquímica no final da tarde é algo leve, nesse momento. Sossega, pequena desesperada, sossega.
                O que está próximo de mim é o sol que entra tímido pela janela e anuncia a proximidade de Outubro. Setembro chegou com poder de iluminar o inverno rigoroso e invadiu nossos dias rio-grandinos com o prenúncio da primavera. Carregada mais de provas do que de flores, ainda será uma primavera.
                Meus olhos pesam e é um pesar agradecido. Tudo tem estado tão bom e um bom batalhado, um bom que emana de tantos privilégios que tenho dito nos últimos tempos.
                A noite foi longa e em muitos momentos soube que estava pagando por ser relapsa, confusa e, você sabe, por praticar a velha arte da procrastinação. Mas olhava ao lado e ali estavam elas. Futuras colegas de profissão, tão diferentes mas cúmplices nessa paixão pela medicina - almas queridas com as quais cruzei nessa nova vida.
                Chego a dar uma risada inesperada. Como consigo ser tão boba? E nem sei por qual motivo esse pensamento brota em minha mente. Talvez por insistir em divagar sobre uma noite de estudos qualquer. Talvez pelo excesso de cafeína,  who knows?
                Mas aí é que reside a beleza inefável: nenhuma noite de estudos é uma noite de estudos qualquer. Partilhar belos momentos de estudo com colegas que há seis meses não conhecia jamais será um momento qualquer. Não permitirei que nenhuma prova ou trabalho ofusque a minha mania de ver poesia em tudo.
                Ao longe, o chiar da chaleira interrompe meus pensamentos. Pulo da cadeira e começo a preparar o novo chimarrão. Voltarei às células epiteliais do intestino grosso.


Texto dedicado a Laís Nascimento e Pauline Simas.

Rio Grande, 22 de setembro de 2011.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Mirar o nada.


Mirando de cantin, vez em quando olho através da janela mas não olho, quieta. Pergunto, imagino, o que é que estou olhando. Meus pequenos olhos castanhos ficam úmidos, creio, e temo que sejam quase que um espelho. Espio, espreitando e procurando por saídas dentro do que não vejo e da imagem que nunca tem foco. É tão gostoso encarar o nada.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sistema Tripartido

Um pouco do que gente aprende depois de passar pelo ensino fundamental e médio...


O princípio de dividir, de desintegrar para compreender, rege o nosso modo de ensino e de aprendizagem. Felizmente em alguns casos, infelizmente em muitos. Somos inseridos nesse sistema desde muito cedo, desde o ensino fundamental; habituamo-nos a tal dinâmica a partir da tradicional divisão de disciplinas. E, quando não somos devidamente orientados, o processo de aprendizagem limita-se ao desconexo e não aprendemos a unir, relacionar.
            A clara relação existente entre a compreensão gramatical, o estudo da estrutura linguística, a leitura de uma obra e a capacidade de - juntando todos esses fatores - escrevermos um texto não é tão evidente assim para muitos e muitos estudantes brasileiros. As disciplinas de português, literatura e redação são apresentadas ao aluno como três grandes áreas distintas. Relacionar essas, então, com história ou geografia é tido como sem sentido. 
Essa situação, lamentavelmente, cria estereótipos para as disciplinas e distorce o ensino da língua como um todo. Português tem sido reduzido a meras normas gramaticais e Literatura, para tantos, não passa da lista de leituras obrigatórias para o vestibular. Isso sem mencionarmos Redação que, ao invés de ser encarada como um recurso de expressão e valorização da individualidade, é tida como o carrasco da vida estudantil.
Ora, não necessitamos de formação em pedagogia para percebermos que uma real interdisciplinaridade pode ser estabelecida através da leitura e da análise de textos em sala de aula - recurso viável para todos, porém raramente utilizado. Triste constatação é quando ouvimos um estudante afirmar que adora as aulas de Português, entretanto não suporta as aulas de Literatura. 
Das tantas maneiras de abordarmos a problemática do ensino da língua portuguesa no país, refletirmos sobre a forma sedimentada sob a qual é trabalhada é, talvez, uma boa maneira de iniciarmos um debate. Não há como combatermos preconceitos linguísticos ou incentivarmos a leitura quando nossos estudantes não veem sentido e conexão entre as disciplinas propostas. Ou pior: não veem sentido e conexão entre esse sistema tripartido e o que vivem cotidianamente.

Cachoeirinha, 26 de julho de 2011.


Dedicado à minha tutora, Michele Zgiet, que lê em sala de aula.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Trouxeste a chave?


Não adianta: saber ler é mais do que apenas ler. Trata-se de rendição, de sentir. Trata-se de chegar perto, de reconhecer a força das palavras e, simultaneamente, admitir a terrível fraqueza que nelas há. Aí reside o nascimento do verdadeiro leitor - aquele que não vê, simples e tolamente, apenas perfeição e beleza na escrita. Aí reside o nascimento do leitor que entende a língua como uma ferramenta, a mais pragmática das ferramentas.

Não há, de fato, criação isenta de objetivos, fins, metas. Não há arte desvinculada ou desengajada. Torna-se, assim, inconcebível que um assunto ligado ao homem não carregue uma semente de preconceito, de hierarquia de valores. Eis a premissa fundamental ao bom entendedor! Assim encontra alimento e torna-se forte o leitor que não vive preso na estética, no superficial de um texto. Vamos, Narciso, mergulhe de vez nessas águas! 
Pensar que o uso da palavra e o interesse do escritor é um elo incorruptível restringe e limita, por vezes, a nossa visão enquanto leitores. Mas ora, nem sempre a limitação é algo ruim - não é ela, inclusive, decorrente de um processo natural das artes em geral? Complexo. Surge, então, algo belo e almejado por tantos de nós: a universalização das palavras. O escritor deseja expandir o seu texto, esticá-lo com cordas invisíveis - tornar, em última instância, imensurável o valor que suas palavras carregam. Contudo, a tentativa de atravessar o abismo existente entre o específico e o geral é um mote nem sempre exitoso. Conquanto poderosas, nossas palavras podem falhar. E a complexibilidade humana talvez não permita, em alguns momentos, verbalizações, representações, traduções.
O deslumbramento que muitos temos em relação às palavras é justificável pois, sim, o universo literário traz ao nosso imaginário tantas novas interpretações e possibilidades de interpretações. Resistir ou render-se às novas possibilidades é opcional. O que não nos é, entretanto, tão opcional assim é a responsabilidade adquirida quando, em verdade, nos tornamos leitores. Sê atenta às entrelinhas, pequena criança. 
Ah, as entrelinhas... "Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas." diz, num misto de provocação e aceitação, Clarice Lispector. Mas, musa, e os tantos e tantos questionamentos que me inquietam? Para os questionamentos que, por fim e ao cabo, sempre permanecem e se renovam não há, possivelmente, conclusão alguma. Haverá, em algum canto, conclusão alguma? Talvez - como em "À procura da poesia" de Drummond - são as palavras que constantemente, com suas mil faces sob a face neutra, nos perguntam (sem interesse pela resposta pobre que daremos) "Trouxeste a chave?".

Cachoeirinha, madrugada de 18 de julho de 2011.