domingo, 20 de janeiro de 2013

Todo o resto, é breve.


De dentro da casa antiga, sentada ao lado da imensa janela, ela observava a menina. Deleita-se observando os contornos difusos da menina, o vestido vermelho, os cabelos soltos. A velha sente orgulho ao ver a menina que delicadamente vai de flor em flor, como numa espécie de ritual em câmera lenta. Cheira, toca e sente mas não ousa arrancar nem mesmo a mais pálida das rosas. 
Minha neta, repete, mentalmente e com vigor, minha neta! Os últimos dias tinham sido difíceis, a dor de cabeça dilacerante, a cegueira avançando. Sabia que não tinha muito tempo. O médico dera esperanças mas nada há como a certeza de um corpo cansado que anseia pelo descanso, enfim. 
Naquela tarde, a vida passara novamente como um filme em suas lembranças. A guerra, os tempos de fome, a fazenda, os filhos. Memórias de cada um dos 87 anos vividos naquele vasto interior descampado. O marido que se fora há um ano. Saudade. Ah, como sentia saudades; ele fora seu melhor amigo, mais amigo do que amante. Sorri, balança a cabeça e volta para o presente num baque. 
A neta ainda está no jardim, brincando, distraída. Com a graça de uma vida inteira, a avó contempla a menina. A cena era bela, destilava os fatos todos. Nascer, desenvolver, morrer. Nem morrer parece mau para este corpo exausto, pensa.
Lá de fora, a neta suavemente abana para a sua abuela.
A menina sorri eternamente. Os sorrisos das crianças é que são eternos, pensa. O resto, é breve. Extremamente breve.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Pergunta mansa

Às vezes passo horas fazendo perguntas. Às vezes não quero pensar em perguntas e tampouco quero fazer perguntas, mas elas vêm. Com truculenta sensibilidade, de mansinho, atropelando o medo e a falta de coragem, elas vêm.
Sentimentos com máscara de pergunta. E daí fico ali perguntando se devo fazer perguntas. Perguntar é viver a vida ou é adiar ela?
Afinal, o que eu quero questionar com minhas perguntas?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Apenas como processo

forcejar
v. i.
Empregar força.
Fazer diligência.
Esforçar-se; lutar.

Eu forcejava, tu forcejavas, ele forcejava, nós forcejávamos, vós forcejáveis, eles forcejavam (..)

É. É muito forcejo para um verbo.
Triste ainda é forcejar contra todas palavras. Dá desgosto: aquele conjunto de palavras unidas à força, só pelo objetivo e sem o processo. Poema sem fundo, sem cor, sem cheiro,
Forcejar as palavras de acordo com um objetivo pode ser um método. Mas o risco é se perder no método - esquecer que se trata apenas de uma tentativa e uma tentativa que carece de significado. Forcejar pode ser um modo de não se perder no universo das palavras. Mas se a procura é por uma receita, já estou destituída do processo. E aí dá desgosto. 
Não precisamos de fórceps literários.

Precisamos é de mais processos.

sábado, 15 de setembro de 2012

You say why and I say I don't know


Queria um único foco, tinha vários. Queria salgado, pediu doce. Queria sol, veio chuva. Queria desviar os olhos da janela, as gotas de chuva escorrendo eram hipnotizantes. Queria contentar-se, o vasto e pleno vazio do todo a (des)contentava. Queria tudo, tinha nada. Queria o nada, vinha o todo. Tinha sono, não queria que o dia terminasse. Queria que o amanhã chegasse, não tinha sono.
"Eu te dou pão e preferes ouro. Eu te dou ouro mas tua fome legítima é de pão." Quem escreveu isso? Não lembrava.
Mas percebeu que naquele momento não importava nenhum nome, nenhuma autoria.
Eu te dou ouro mas tua fome legítima é de pão. Era um dos tantos escritos da vida.
E de muitas vidas.
E qualquer vida poderia ter escrito.
Porque há desencontro. E a gente pode se encontrar nele.

domingo, 26 de agosto de 2012

Alguns passos são memoráveis

Um passo. Um dia. Um dia memorável, tão memorável que você percebe que ele é importante a cada passo. Em vários momentos você pensa "isso está sendo importante". Mas não é apenas aquele narrador chato dentro da sua cabeça. É um sentimento - bem mais do que um pensamento. Você saiu de casa, coração sangrando (sim) mas saiu de casa. Frio. Enfrentou o frio e enfrentou o mundo. Mais o mundo do que o frio, sejamos sinceros. Fantasmas. Você saiu e caminhou por aquelas ruas, dobrou aquelas esquinas, pisou em cada pedaço de chão que um dia doeu em cada pedaço de coração. Remissão? Auto-afirmação? Não. Mas é de uma paz tremenda.
Desabafa, pequena andarilha, fala e revive a cada fala. E, depois, de repente, se cala. Consente. Revive. E segue. Doída mas viva. Viva.

escrito na tarde do dia 13 de julho de 2012, num café numa esquina de Porto Alegre, no dia em que saí de casa para conhecer Cecília.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sobre manhãs frias e sonhos

     Acontece. Há aquelas manhãs frias em que a pequena chama de esperança dentro de mim quase se apaga. Aquelas manhãs frias em que quando o despertador toca, e o mundo fora das cobertas parece terrivelmente ameaçador, nos minutos em que procuro - em algum lugar - um ímpeto (por menor que seja) para levantar vem à mente, o tipo de pergunta ”Por que, afinal, eu tô fazendo tudo isso?”
      Pois é, a tal busca por um sentido para tudo. Parece piegas, e é. Aliás, em muitos momentos é realmente muito piegas. Mas, confesso, entre uma soneca e outra do celular, essa busca me faz ter a força necessária para, enfim, entrar num banho, tomar um café, sair de casa. E ao sair do meu prédio, quando o coração parece seco demais perto do úmido e gélido dia riograndino, mais uma vez tenho certeza de que todos estamos saindo de casa, sendo engolfados por nossos dias, porque todos somos, mesmo que só um pouquinho, todos somos sonhadores.
     Quando vestibulanda, contemplava com olhos insaciáveis, a imensidão de possibilidades e de dificuldades até alcançar o que chamava de “meu sonho”. Hoje vejo, pois tenho aprendido, nem sempre mansamente, que os sonhos não residem meramente em realizações concretas. A aprovação no vestibular foi um símbolo - a caminhada é que foi o sonho sendo erguido e destruído e reerguido tantas vezes. Penso, são as passagens que se continuam, unidas e regidas por essas nossas vontades e ânsias e planos e tudo isso não tem sentido se não acreditamos, se não sonhamos. 
       O gosto pelas coisas secretas me faz sonhar. A minha fé me faz sonhar. E ter fé não é unir as mãos e acreditar toscamente. Oh Deus, tu bem sabes quantas vezes somos feridos quando caminhamos com fé. Porque sonhar também pode ser caminhar com fé. E caminhar implica agir, cair, sacudir a poeira, seguir. Dói. 
      As mãos endurecidas e os ombros que pensam suportar o mundo querem nos dar certezas, e os sonhos questionam cada uma destas certezas. Em tempos em que não se diz mais ‘acredite’, diz-se: ‘vai e vence acima de tudo’, é bem possível que quem sonha, como mestre Álvaro de Campos registrou, perceba: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
     Sabemos tão pouco sobre sonhos, embora não vivamos sem sonhar. Chego a pensar, às vezes, nos sonhos como entidades independentes, que nunca morrem, permanecem ali, quietinhos, na alma das pessoas, na medida em que nos basta, como se abrigássemos aquela delicada quantia de sonho que cabe em nós.
      Perceber que só saio da minha cama quentinha porque os sonhos tem esses fios invisíveis de fé e de amor que me puxam tem sido um
 contato interior belo e inexplicável. 
     E, quando os esforços parecem inúteis, o espetáculo diário grotesco, a morte mais viva do que a própria vida, volto-me, resignada e digo a mim mesma, repetidas vezes: ninguém pode sonhar por mim.

domingo, 10 de junho de 2012

Querer

Quero a delícia de não ter essa vontade de chorar toda a noite. Quero deixar de querer isso, logo. E aí estarei sorrindo.